Pornochanchada é o nome de um ciclo de comédias eróticas de baixo orçamento que dominou a produção cinematográfica brasileira ao longo dos anos 1970 e adentrou o começo dos anos 1980. A definição corrente na literatura de referência descreve roteiros com ênfase em situações eróticas, insinuação e piada, e prioridade dada à exibição do corpo feminino, sem sexo explícito. A ausência do explícito não era uma opção de linguagem: o conteúdo hardcore estava bloqueado pela censura do período militar até os anos finais do ciclo, e um filme que o incluísse simplesmente não recebia certificado de exibição.
O nome é uma palavra-valise e diz muito sobre o desprezo com que o ciclo nasceu batizado. Ele junta "pornô" a "chanchada", termo com que a crítica brasileira designava as comédias populares e baratas que os estúdios nacionais produziram em série dos anos 1930 aos anos 1950 — filmes musicais e cômicos, de enorme público e nenhum prestígio, associados ao carnaval e ao rádio. Chamar o novo ciclo de pornochanchada era, portanto, dizer duas coisas ao mesmo tempo: que ele era herdeiro daquela comédia popular e que ele havia acrescentado sexo à fórmula. O termo não foi inventado pelos produtores. Foi colado neles.
É por isso que a primeira coisa a estabelecer sobre a pornochanchada é o que ela não era. Ela não era cinema pornográfico. Durante a maior parte de sua existência, o ciclo operou dentro de um limite legal estreito e conhecido, e sua gramática — o duplo sentido, a situação de comédia de costumes, o corte antes do ato — é consequência direta desse limite. A produção explícita brasileira é outra coisa, começa depois, tem outros filmes, outros diretores e outro público, e a passagem de uma para a outra é justamente o episódio que encerra o ciclo. Tratar as duas como sinônimos apaga o fato mais interessante do período, que é o de um cinema construído inteiramente em torno daquilo que não podia mostrar.
A segunda coisa a estabelecer é a escala. Não se trata de um nicho marginal. Entre 1970 e 1975, nove dos 25 filmes brasileiros de maior bilheteria da história até então eram pornochanchadas, e o cinema brasileiro como um todo chegou a cerca de 30% da venda doméstica de ingressos, algo em torno de 120 milhões de espectadores por ano. O ponto alto comercial do ciclo, A Dama do Lotação, dirigido por Neville d'Almeida em 1978 a partir de um conto de Nelson Rodrigues e estrelado por Sônia Braga, vendeu aproximadamente 6,5 milhões de ingressos e chegou a ser o sétimo filme brasileiro de maior bilheteria de todos os tempos. Durante uma década, a pornochanchada foi, em termos de público, o cinema brasileiro.
A terceira é a geografia. A produção se concentrou na Boca do Lixo, o distrito produtor em torno da Rua do Triunfo e da região da Santa Ifigênia, no centro de São Paulo, onde a proximidade dos laboratórios de revelação e da antiga estação da Luz havia atraído distribuidoras desde o início do século. Nos anos 1970, a Boca abrigava cerca de dois terços de todos os filmes brasileiros produzidos por ano — e não só pornochanchadas. Cinema marginal, cinema de autor, policiais e filmes de horror eram feitos ali, lado a lado, muitas vezes pelas mesmas equipes e nos mesmos estúdios alugados por diária.
Essa convivência importa para entender as carreiras do período. Carlos Reichenbach (1945–2012), um dos diretores mais prolíficos da Boca, transitava entre a comédia erótica e um cinema pessoal e ensaístico ao longo da mesma década, com títulos como Lilian M. – Relatório Confidencial, de 1974, e A Ilha dos Prazeres Proibidos, de 1978. Sílvio de Abreu, nascido em 1942, dirigiu A Árvore dos Sexos, de 1977, e Mulher Objeto, de 1980, antes de se tornar um dos autores de maior sucesso da teledramaturgia brasileira, chefe de dramaturgia da TV Globo e, depois, diretor na HBO Max na América Latina — e não se afastou publicamente daquele crédito nas retrospectivas de sua carreira. Jean Garret (1946–1996), nascido nos Açores, trabalhou como assistente de Ody Fraga e de Fauzi Mansur antes de dirigir seus próprios híbridos de erótico e suspense a partir de 1974. Fauzi Mansur (1941–2019) se especializou no gênero desde o começo da carreira. A Boca do Lixo não era um gueto de um gênero só: era o parque industrial do cinema brasileiro daquela década.
O mesmo vale para o elenco. Vera Fischer, Miss Brasil de 1969, estreou no cinema em Sinal Vermelho – As Fêmeas, de 1972, e trabalhou em filmes do ciclo e adjacentes a ele até meados da década, antes de uma carreira de décadas no cinema — inclusive em Quilombo, de Cacá Diegues, em 1984 — e na televisão. Helena Ramos, apresentada pela imprensa da época como musa do ciclo, atuou em mais de vinte filmes do gênero, entre eles Roberta, a Gueixa do Sexo, de 1978, e Iracema, de 1979, e depois passou à teledramaturgia, em novelas como Guerra dos Sexos, de 1983. Nicole Puzzi entrou no cinema pela direção de Jean Garret e soma mais de vinte longas; hoje apresenta o programa de retrospectiva Pornolândia, no Canal Brasil. Zaira Bueno atuou em mais de dezesseis filmes entre 1976 e 1986, deixou a tela depois de Fêmeas em Fuga e vive nos Estados Unidos desde 1996, trabalhando como pintora. David Cardoso, conhecido como o Rei da Pornochanchada, fundou a própria produtora, a DaCar, em 1973, e trabalhou como ator, diretor, roteirista e produtor em títulos como Amadas e Violentadas, de 1975, e O Dia do Gato, de 1988.