A categoria desta página é simples de enunciar e trabalhosa de aplicar: intérpretes trans, brasileiras, com trabalho profissional documentado no cinema pornográfico. Cada uma das três condições precisou ser verificada separadamente, e é a primeira delas que carrega o problema terminológico que domina o resto desta seção.
No Brasil, travesti não é sinônimo de mulher trans. É uma identidade autodeclarada, com trajetória política e cultural própria, reivindicada como categoria distinta por um movimento que fez dela um termo de afirmação e não de descrição externa. Não é a tradução portuguesa de “trans woman” e não pode ser usada como se fosse — o erro funciona nas duas direções, tanto ao chamar de travesti alguém que se entende como mulher trans quanto ao apagar o termo de quem o reivindica. Quem escreve sobre esta categoria em português precisa saber disso antes de escrever a primeira frase. É por isso que a explicação está aqui, e não numa nota de rodapé.
Sabendo disso, a pergunta seguinte é o que fazer quando a fonte não diz. E, nesta lista, a fonte quase nunca diz. Das sete intérpretes classificadas, seis não têm nenhuma declaração própria localizável sobre o termo que usam para si mesmas. A Wikipédia em português, quando escreve sobre elas, alterna entre travesti, mulher transexual e transexual dentro do mesmo verbete, sem citar a pessoa em momento algum. A sétima, Bianca Soares, é a exceção — e a exceção aponta na direção contrária ao que o plano editorial desta edição supunha. Em entrevista publicada pelo Imirante em 25 de agosto de 2004, no mês em que foi exposta como trans durante uma temporada de reality show no SBT, ela disse: “Sou uma mulher normal, não travesti.” A frase é uma recusa expressa do rótulo, feita no mesmo fôlego de um pedido de respeito.
Daí decorre a decisão de título desta página, que é a decisão editorial mais importante que ela toma. A versão planejada chamava-se “travestis e atrizes trans brasileiras”. Publicá-la assim aplicaria o termo travesti a seis mulheres que nenhuma fonte documenta reivindicando-o, e a uma sétima que o recusou por escrito num arquivo de imprensa que qualquer pessoa pode conferir. A página sai, portanto, como atrizes pornô trans brasileiras. A regra não mudou: a regra sempre foi seguir a identidade declarada de cada intérprete, com fonte, e usar a construção neutra onde ela não está documentada. Os dados é que disseram qual das duas metades da regra se aplica a quase todo mundo aqui.
Na prática, isso se traduz ficha por ficha. Onde há declaração, a entrada usa a palavra da própria intérprete e mostra de onde ela veio. Onde não há, a entrada usa a construção neutra e diz, com todas as letras, que o termo não está documentado — porque um leitor que não é avisado da lacuna vai supor que o texto sabe o que não sabe. Nome e pronomes corretos em toda parte, sempre. Nome morto em lugar nenhum, mesmo onde a fonte usa, e ao menos uma das fichas desta lista existe numa base documental que usa.
A regra de inclusão tem ainda um segundo filtro, e ele custou nomes. Esta base não escreve ficha para ninguém cuja condição de intérprete adulta profissional na estreia não possa ser confirmada. Várias candidatas apareceram na pesquisa e foram descartadas por essa regra, e nenhuma delas é nomeada aqui: uma pessoa citada no contexto de uma dúvida sobre menoridade carrega o dano da citação para sempre, e o leitor não ganha nada com o nome. A regra é publicada, o fato de ela ter sido aplicada é publicado, a lista não é. Esse é o desenho, e ele é deliberado.
Por fim, o que a classificação não é. Ela não ordena as sete por beleza, por popularidade percebida ou por qualquer coisa que dependa da opinião de quem escreve sobre o corpo de quem trabalha. Ela ordena por registro verificado: prêmios auditáveis, volume e diversidade de créditos, demanda onde há dado, ofício, longevidade e influência fora do setor, com os pesos publicados e justificados nesta mesma página. Onde a posição de alguém repousa sobre presença de carreira em vez de reconhecimento, a ficha diz isso na cara do leitor.